Pio XII não deve ser chamado de o papa de Hitler, mas David Kertzer reafirma omissão sobre extermínio de judeus
Pio XII (1876-1958) pode ser chamado de “o papa de Hitler”, como já escreveram pesquisadores e jornalistas? Tudo indica que não. Ainda assim, a imagem do religioso católico permanece chamuscada. O historiador e antropólogo americano do norte David Israel Kertzer “reabre” o caso da conexão entre o Vaticano e o governo nazista de Adolf Hitler, ditador da Alemanha de 1933 a 1945.
A base deste texto é a resenha-reportagem “As revelações do Arquivo Secreto do Vaticano sobre a verdadeira relação entre Pio XII e Hitler”, de Israel Viana, do jornal espanhol “Abc”.
O “Abc” comenta o livro “O Papa em Guerra — A História Secreta de Pio XII, Mussolini e Hitler” (Atico de los Livros, 768 páginas, tradução de Joan Eloi Roca). Não há tradução brasileira.
Os documentos do “reinado” de Pio XII foram guardados no Arquivo Secreto do Vaticano, o que impediu que se pudesse entender, de maneira ampla, seu comportamento ante Hitler e a respeito do Holocausto. Prevaleceu a tese de que se submeteu ao chanceler alemão.
As coisas começaram a mudar quando, em 2020, o papa Francisco decidiu desclassificar os arquivos. Quarenta funcionários do Arquivo Secreto conseguiram organizar, durante 17 anos, a imensa quantidade de documentos — quase 16 milhões (não apenas sobre o papado de Pio XII).
Desde a liberação proporcionada por Francisco, mais de 200 pesquisadores começaram a vasculhar a documentação a respeito de Pio XII.
Hitler, o papa e o genro do rei da Itália
Ganhador do Prêmio Pulitzer de 2015 pelo livro “O Papa e Mussolini — A Conexão Secreta Entre Pio XI e a Ascensão do Fascismo na Europa” (Intrínseca, 592 páginas, tradução de Berilo Vargas. Observe-se que a pesquisa trata não de Pio XII, e sim de Pio XI, que foi papa de 1922 a 1939), Kertzer passou quatro anos vasculhando os Arquivos Secretos. Ele é professor da Universidade de Brown.
Kertzer disse ao “Abc”: “A polêmica sobre a conduta” de Pio XII persiste “há mais de meio século. O Vaticano foi pressionado intensamente, durante todo esse tempo, para que permitisse a consulta ao arquivo. Por isso, a autorização para consultá-lo foi muito emocionante para mim, assim como foi estar ali, pela primeira vez, em 2 de março de 2020”.
Meticuloso e atento ao que é novo nos arquivos, Kertzer descobriu, no emaranhado de materiais sobre Pio XII: “As notas escritas por 70 embaixadores da Santa Sé, os olhos do Papa no estrangeiro; as mensagens trocadas com o presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt; a transcrição das entrevistas que manteve com alguns dirigentes nazistas; sua correspondência pessoal e os pedidos de socorro de organizações judaicas nos países invadidos por Hitler”.
Mesmo com amplo material — inédito — nas mãos, Kertzer pesquisou também em outros arquivos na Itália, Alemanha, França, Grã-Bretanha e Estados Unidos. Seu livro, resultado desta vasta pesquisa, é considerado “um dos relatos mais exaustivos e completos” sobre as relações do Vaticano com os regimes nazista e fascista.
“No livro, revelo pela primeira vez um segredo que o Vaticano ocultou durante oito décadas. Quando o cardeal Eugenio Pacelli foi eleito papa, Hitler viu a oportunidade de pôr fim às críticas que recebia de seu predecessor, Pio XI. Por meio dos documentos desclassificados não só descobri que, para consegui-lo, o Führer indicou um aristocrata nazista, Philipp von Hessen, casado com a filha do rei da Itália, para que entabulasse negociações secretas com o pontífice”, afirma Kertzer.
O pesquisador acrescenta que teve acesso também às transcrições exatas das conversações que” Pio XII e Von Hessen “mantiveram em alemão”. O papa as guardou.
Pio XII não condenou o Holocausto
No livro “Os Papas Contra os Judeus” (publicado no Brasil sob o título, suavizado, de “O Vaticano e os Judeus” pela Editora Rocco, 414 páginas), Kertzer sublinha, menciona o “Abc”, que “o antissemitismo católico havia contribuído para legitimar o Holocausto”.
Porém, com a consulta à nova documentação, Kertzer admite que é “injusto e enganoso referir-se a Pio XII como ‘o papa de Hitler’”.
“O certo é que não sentia nenhum afeto pelo ditador nazista, pois que o considerava como um homem que pretendia limitar a influência da Igreja Católica e, ademais, defensor de uma ideologia pagã”, frisa Kertzer.
“No entanto”, Pio XII “se sentia intimidado” por Hitler e “nunca quis contrariá-lo”.
“Os novos arquivos permitem compreender muito melhor porque agiu” de maneira ambígua, ou aparentemente pró-Hitler, “sobretudo nos primeiros anos da guerra, quando havia razões para pensar que a Europa cairia sob o controle” do ditador da Alemanha.
Mesmo reavaliando o comportamento de Pio XII ante Hitler, Kertzer destaca que o papa “não” pode ser declarado “inocente”, “pois jamais condenou a matança dos judeus no momento em que estava acontecendo”.
Pio XII, papa entre 1939 e 1958, não se pronunciou sobre a invasão da Polônia — país católico — em setembro de 1939.
Kertzer relata que representantes da Igreja Católica na Polônia pediram ajuda a Pio XII, mas o papa não os atendeu.
Sintetizando o pensamento de Kertzer, o “Abc” assinala que, “durante o conflito [1939-1945], Pio XII “se preocupou unicamente em defender a Igreja Católica como instituição e, neste sentido, teve êxito”.
O pesquisador diz que, ao defender a Igreja, Pio XII deixou de lado a defesa dos “valores cristãos”. O papa decidiu não usar a ampla e decisiva estrutura católica para “enfrentar a opressão e o genocídio perpetrado pelo Terceiro Reich”.
O papa anterior, Pio XI, denunciou, de maneira contínua, a Alemanha nazista por meio do “L’Osservatore Romano”. O religioso acusava o ditador e sequazes de perseguirem a Igreja Católica. Já o papa Pio XII “proibiu o diário do Vaticano de publicar críticas contra o governo de Hitler”.
Lágrimas de Pio XII e o cardeal Roncalli
No princípio da Segunda Guerra Mundial, o cardeal Angelo Roncalli, delegado apostólico em Istambul e futuro papa João XXIII, reuniu-se com Pio XII. “De repente”, relata Kertzer, “o pontífice perguntou-lhe como avaliava que iriam julgá-lo por seu silêncio enquanto os nazistas ‘continuavam com suas depredações’. Nesse momento, Roncalli observou que os olhos do papa se encheram de lágrimas. Se trata de um dos poucos testemunhos que se conhece acerca da reação que lhe provocava na intimidade a informação que recebia do extermínio. Ainda assim, manteve sua posição de neutralidade e eticamente duvidosa até o final do conflito e nos anos posteriores, até sua morte, em 1958”.
Pio XII sabia do extermínio em Auschwitz, Treblinka, Sobibor, entre outros. Ele era informado pelos bispos dos territórios ocupados pelos alemães. Um sacerdote romano, “que servia como capelão católico do exército italiano e viajava regularmente em um trem-hospital, na frente oriental, também informava ao Vaticano sobre a matança de judeus”. Kertzer afirma que os documentos do Vaticano, que já podem ser consultados, indicam que o papa sabia de tudo — assim como os alemães.
“Trata-se de um dos fracassos mais destacados” da história de Pio XII e da Igreja Católica. O papa foi incapaz de fazer um exame crítico ao término da guerra — quando não estava mais sob qualquer ameaça de Hitler.
Pio XII “tampouco quis examinar o papel dos católicos no assassinato em massa dos judeus da Europa e, muito menos, pedir perdão. Chama a atenção, no entanto, que o episcopado católico alemão tenha se desculpado por ter incentivado os católicos da Alemanha a servir como soldados leais no conflito e o por nunca terem expressado críticas pelos assassinatos que eles cometeram. Não se pode esquecer que muitos desses soldados de Hitler se consideravam bons católicos”, diz Kertzer, um ativo pesquisador de 77 anos.
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