Bolsonarimo morreu? Cientistas políticos comentam o futuro do campo conservador após enfraquecimento do movimento
Com colaboração de Giovanna Campos
Com a aproximação das eleições de 2026, partidos e lideranças da direita brasileira passam por um processo de reorganização em torno de novos nomes para compor a liderança do campo conservador. Ainda assim, o movimento segue fortemente marcado pelas origens bolsonaristas que impulsionaram sua ascensão política, avaliam cientistas e analistas políticos ouvidos pelo Jornal Opção.
Para os especialistas, a direita encontrou novo fôlego ao projetar lideranças emergentes, ao mesmo tempo em que busca consolidar o apoio de suas bases em uma disputa que mira o comando do governo federal. Segundo o cientista político Guilherme Carvalho, essa reorganização ocorre de forma independente da figura do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro (PL) e até mesmo do bolsonarismo enquanto movimento centralizador.
De acordo com Carvalho, o bolsonarismo é apenas uma faceta da direita que ganhou protagonismo na virada da década, mas hoje disputa espaço e liderança com correntes mais tradicionais e estatistas, citando o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), como exemplo desse outro perfil. “A direita se transformou em uma das duas maiores forças político-eleitorais do país. Isso é fato. Mas o bolsonarismo é apenas um tipo de direita”, afirmou em entrevista ao Jornal Opção.
Nesse contexto, Carvalho observa que diferentes personalidades disputam o legado deixado por Bolsonaro, como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), ainda que com estratégias distintas.
Enquanto Nikolas Ferreira construiu uma mobilização social considerada “inquestionável” por meio das redes sociais, o analista avalia que o parlamentar não se apresenta, ao menos por ora, como um líder natural do campo. “O Nikolas usou o bolsonarismo como um trampolim, mas agora chega a um outro status, que não é necessariamente de liderança”, avalia.
Já Flávio Bolsonaro, segundo Carvalho, carrega o ônus político do pai, atualmente preso, o que limita sua capacidade de articulação e impacto eleitoral. Ainda assim, ressalta que o potencial de mobilização do senador ainda não foi plenamente testado. “Enquanto outros trabalham para crescer em cima dos espólios do movimento, Bolsonaro está preso e sem capacidade de pedir voto para ninguém”, afirma.
Para Lehninger Mota, no entanto, o peso político do ex-presidente permanece relevante. O cientista político sustenta que qualquer pré-candidato que receba o apoio direto de Bolsonaro tende a disputar o segundo turno das eleições presidenciais contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o que dificulta o surgimento de uma terceira via.
“É consenso que qualquer candidato apoiado por Bolsonaro estará no segundo turno”, diz Mota, ao apontar que esse cenário fortalece a reivindicação de Flávio Bolsonaro pelo comando da base bolsonarista.
Mota também destaca que o bolsonarismo ainda mantém redutos eleitorais importantes no país, como o estado de Goiás. Contudo, avalia que a sobrevivência do movimento depende de uma militância ativa, especialmente nas redes sociais, com figuras como Nikolas Ferreira mobilizando pautas e atos, como a chamada “Marcha da Liberdade”.
Nas redes sociais, o Nikolas tem um alcance muito grande. Há vídeos com milhões de curtidas. Ele contribui para a sobrevivência do movimento, o que é natural em períodos pré-eleitorais.
Na mesma linha, o cientista político Lucas Fernandes avalia que o bolsonarismo segue relevante, ainda que enfraquecido.
Segundo ele, parte desse enfraquecimento se deve ao próprio Bolsonaro, que, durante o governo, teria limitado o protagonismo de possíveis sucessores, inclusive por meio da exoneração de ministros e continuou coibindo novas personalidades. “Bolsonaro é um líder muito personalista e sempre se preocupou em coibir o surgimento de figuras carismáticas que pudessem disputar a liderança do campo”, analisa Fernandes.
Para o especialista, o ex-presidente busca manter o controle absoluto da direita, mesmo que isso implique riscos eleitorais. Nesse sentido, a preferência por Flávio Bolsonaro, considerado mais leal, ocorreria em detrimento de nomes mais competitivos e independentes, como Tarcísio de Freitas.
Bolsonaro parece preferir perder uma eleição presidencial e manter o protagonismo político do que vencer e perder o controle do campo da direita. É por isso que ele indica Flávio, que é um candidato menos competitivo do que Tarcísio.
Ainda assim, Fernandes concorda que o segundo turno das eleições deve contar com um nome ligado ao bolsonarismo. “O movimento está menor do que antes, mas continua muito importante, mesmo que a direita não se resuma exclusivamente a um eleitorado fiel a Bolsonaro”, diz.
Por fim, o jornalista e cientista político Luiz Signates apresenta uma leitura mais crítica do bolsonarismo, que classifica como um movimento identitário em processo de retração.
Para ele, a tendência é que a extrema-direita se fragmente ainda mais na disputa pelo espólio político deixado por Bolsonaro. “O bolsonarismo como movimento identitário tende a se tornar vinculado a um gueto que creio será cada vez menor. Entretanto, aquilo que lhe deu origem e que o alimenta, isto é, uma extrema direita orientada para a instrumentalização da religião, a orientação pró-Estados Unidos sob pretexto nacionalista e de tendência antidemocrática, esta ainda se mantém, até porque se trata de fenômeno que não é somente brasileiro, mas internacional.”
Signates avalia que figuras como Nikolas Ferreira devem liderar uma vertente ideológica e religiosa do pós-bolsonarismo, enquanto o Centrão tende a absorver os aspectos mais fisiológicos do movimento.
Tanto a vertente religiosa, provavelmente liderada por Nikolas Ferreira, quanto a vertente fisiológica, articulada pelo Centrão no Congresso Nacional, devem disputar o pós-bolsonarismo, ainda que alianças táticas com bolsonaristas possam ocorrer.
Segundo o jornalista, a movimentação de Flávio Bolsonaro representa uma tentativa de manter a família politicamente ativa, enquanto a relevância do ex-presidente tende a diminuir enquanto permanecer preso.
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