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As flores do carrinho da gari chegaram a mim

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A tinta desta crônica veio de uma gari que presenciei numa rua do Centro. Espero que minha tinta esteja à altura do acontecimento. Nem sempre o desejo da pena encontra a tinta apropriada para pintar os fatos: ora faltam pingos nos is, ora eles sobram. O detalhe da gari estava em seu carrinho: além de diferente dos usuais, possuía algo que pesou na minha observação – flores o enfeitando. Eram artificiais, mas eram flores e carregavam uma intenção de beleza.

Ela estava na dela, cumprindo o seu papel tão importante de varrer o lixo da rua e recolhê-lo, deixando as ruas limpas para maior beleza e higiene da cidade. Entre folhas secas e lixos jogados no chão, havia uma espécie de dignidade silenciosa. No vai e vem da vassoura e do carrinho, uma ação discreta de quem cuida da cidade sem esperar reconhecimento. Mais abaixo volto à gari, mas antes vou divagar um pouco sobre as pessoas que vejo em minhas caminhadas pela cidade. Também estou dentro das pessoas observadas. Não desprego os olhos de mim. Às vezes até colírio uso para melhorar a visão. Meu medo maior, confesso, é me perder na algazarra dos imbecis.

Há pessoas que apenas caminham pelas ruas, como sombras meramente cumprindo o horário do seu percurso existencial até o minuto final, quando cai o último grão de areia da ampulheta. Confesso que, em alguns momentos de ensimesmamento, também me vejo no meio dessa turba. Na verdade, todos nós estamos. Alguns, inclusive, andam carregando pedra morro acima — não por sagacidade em tentar enganar os deuses Tânatos e Hades, como fez Sísifo, mas por causa da ferrugem abjeta na engrenagem social a lhes corroer a alma, fazendo-os berrar como ruminantes rumo ao matadouro. Todos nós, altaneiro leitor, estamos, como disse “o rapaz latino-americano e sem dinheiro no bolso”, caminhando para a morte pensando em vencer na vida.

Em Eclesiastes 2 (livro cuja autoria é atribuída ao rei Salomão), o narrador faz um relato desacorçoado sobre sua existência. Vejo no livro certa pertinência ao que canta Belchior. Conta o narrador que buscou respostas no riso, no vinho e nas sensações, procurando entender o que realmente vale a pena no pouco tempo de vida do ser humano diante da idade do mundo. Mergulhou nos prazeres, nas conquistas materiais, dedicando-se a construir, plantar e acumular riquezas, sem negar aos olhos e à alma nenhum desejo.

Sísifo, rei astuto de Corinto, enganou os deuses Tânato e Hades e por isso foi condenado por Zeus a empurrar eternamente uma enorme rocha montanha acima no submundo | Foto: Reprodução

Mas, porém, todavia, ao refletir sobre tudo o que realizou e acumulou, chegou à conclusão de que nada trouxe sentido duradouro, percebendo que tudo era vaidade, aflição de espírito e sem proveito real diante da vida. Talvez essa conclusão, de viés niilista, tenha levado à afirmação de que “na muita sabedoria há muito enfado; e quem aumenta o conhecimento aumenta também a dor”. (Será mesmo, altaneiro leitor?)

Sobre a gari, não é a primeira vez que a vejo no Centro. Sua particularidade, como mencionei no primeiro parágrafo, já havia chamado minha atenção. As flores de fora, eu as vi dentro dela. A gari, em seu gesto de carregar lixo em um carrinho com flores, mostrou, ao cuidar da limpeza da cidade, que é possível desafiar a dureza do cotidiano. No fundo, levar flores enquanto se recolhe o que foi descartado é uma forma sutil de resistência.

O movimento da vassoura da gari chegou até a mim; então uma vassoura metafórica pôs-se a me varrer por dentro. (Não posso jogar o lixo debaixo do tapete…)

Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza

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