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Na filosofia agostiniana, humildade é verdade sobre si

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Ana Kelly Souto

Especial para o Jornal Opção, de Portugal

O abecedário de Santo Agostinho: H de humildade

Depois da graça, a letra H nos obriga a abaixar o olhar. Humildade, palavra que já soou como fraqueza social, hoje circula como adjetivo simpático, quase um selo de boa convivência. “Ele é humilde.” “Ela é tão humilde.” Repete-se como elogio leve, estratégia de reputação, performance aceitável de quem não se exibe demais e procura parecer acessível. Tampouco se confunde com autodepreciação, com negar talentos ou encenar modéstia para colher aprovação.

Humildade vem do latim humilitas, derivado de humus, terra, chão, solo fértil. O humilde, etimologicamente, é aquele que está próximo da terra, não elevado, não inflado, não suspenso acima da própria condição. Da mesma raiz nasce humanus. Ser humano é, desde a origem da palavra, ser terrestre, ser de barro. A etimologia é bela, mas também é exigente, porque estar próximo do chão não significa parecer simples, nem vestir uma estética de simplicidade.

Na filosofia agostiniana, humildade é verdade sobre si. Trata-se de reconhecer a própria condição criada e aceitar que não somos a fonte do ser, nem da verdade, nem da graça. Para Agostinho de Hipona, a soberba não é apenas um defeito moral entre outros, mas a raiz da desordem da alma, o movimento pelo qual o homem quis ser como Deus sem Deus. É pela humildade que retorna ao seu lugar verdadeiro. Em A Cidade de Deus, afirma que “o amor de si levado até o desprezo de Deus construiu a cidade terrena; o amor de Deus levado até o desprezo de si construiu a cidade celeste” (De civitate Dei, XIV, 28). A soberba encurva o homem sobre si mesmo e o fecha no próprio círculo. A humildade, ao contrário, o reordena, recolocando cada amor no seu devido lugar.

Cristo é, para Agostinho, o modelo supremo dessa pedagogia do abaixamento. Deus que se faz carne. E o maior momento dessa humilhação não está apenas na crucificação, mas no próprio fato de se fazer homem. O Verbo eterno que aceita nascer, sofrer e morrer não realiza um espetáculo de poder, mas manifesta uma lógica de descida que educa, a encarnação é a lição mais radical contra o delírio da autossuficiência.

Santo Agostinho na pintura de Philippe de Champaigne

Por isso, na filosofia agostiniana, humildade não é apenas traço de comportamento, mas condição metafísica. É reconhecer-se criatura, saber-se feito do pó não como humilhação psicológica, mas como verdade ontológica. Nas Confissões, ao narrar seu percurso intelectual, o filósofo identifica o obstáculo que o impedia de compreender os textos sagrados no orgulho da própria inteligência. Ele havia aprendido a subir pelo pensamento neoplatônico, mas ainda não sabia descer. Somente quando encontra Cristo humilde entende o caminho. “Tu resistes aos soberbos e dás tua graça aos humildes” (Confissões, VII, 18). A frase é decisiva, porque Deus não resiste ao pecador frágil, mas ao inflado, ao que se basta. Humildade, então, não é parecer pequeno diante dos outros, mas aceitar-se dependente diante de Deus.

Uma anedota ajuda a iluminar essa diferença

Conta-se que um rei decidiu viver de modo simples, vestia-se sem luxo, andava entre o povo e evitava qualquer ostentação. Era justo e acessível. Certa noite, ajoelhado em oração, dizia que desejava crescer cada vez mais na humildade. Nesse momento, entra no templo um homem miserável, roupas rasgadas e pés descalços, que exclama em voz alta ser o homem mais humilde do mundo. O rei levanta a cabeça e se enfurece, perguntando como ele ousava declarar-se mais humilde do que ele próprio.

A anedota é cômica, mas também é cruel, porque revela uma armadilha sutil. A humildade pode transformar-se em título, em critério de comparação, em competição silenciosa. No instante em que é proclamada ou disputada, já deixou de ser humildade. O rei não queria desaparecer diante de Deus, queria ser o mais humilde. Continuava no centro, o miserável fazia o mesmo, ambos disputavam um lugar.

A humildade agostiniana não disputa lugar algum, porque devolve o lugar. Recoloca o homem no humus, no chão da criatura. O soberbo pode vestir trapos e continuar inflado. O humilde pode usar coroa sem se desordenar. A questão não é estética nem social, é ontológica.

Talvez esse seja o verdadeiro desconforto da letra H. Não é que desprezemos a humildade, mas a transformamos em atributo social, quase um capital simbólico, algo que pode ser exibido, avaliado e convertido em prestígio moral. E quando a virtude vira moeda, já está corrompida, porque passou a servir ao olhar alheio e não à verdade do ser.

A humildade começa no chão, mas não termina ali. É desse abaixamento que nasce a verdadeira ascensão, não a que eleva para o palco, mas a que conduz para dentro. E talvez seja justamente isso que mais nos inquieta, porque ao descer da vitrine é preciso atravessar a própria interioridade. É nesse ponto que a letra H se inclina e já nos empurra para a próxima letra, I de interioridade, onde não basta parecer, é preciso confrontar o que se é.

Ana Kelly Souto é doutora em Ciências da Religião, professora da PUC-Goiás e colaboradora do Jornal Opção.

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