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Inteligência artificial entra em campo contra a ferrugem asiática da soja

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A guerra contra a ferrugem asiática da soja acaba de ganhar um reforço digital. Cientistas brasileiros desenvolveram uma plataforma que combina inteligência artificial, dados climáticos, informações agronômicas e imagens digitais para diagnosticar e prever o risco da doença — considerada uma das mais severas da cultura. Hospedado em nuvem, o sistema avalia, em tempo real, a probabilidade de ocorrência do fungo e gera relatórios técnicos com recomendações de manejo. A ideia é simples e ambiciosa ao mesmo tempo: transformar dados dispersos em decisões mais seguras dentro da lavoura. Agora, os pesquisadores buscam parceiros privados para levar a tecnologia ao setor produtivo. Doença pode causar perdas de até 80% A ferrugem asiática, provocada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, é velha conhecida do produtor rural. Dissemina-se pelo vento, atravessa fronteiras e pode provocar perdas de até 80% da produção em casos severos. Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra brasileira 2025/26 deve alcançar cerca de 177,6 milhões de toneladas de soja, em uma área estimada de 49,1 milhões de hectares — 3,6% superior à anterior. Em um cenário dessa magnitude, qualquer ponto percentual perdido significa bilhões. Estudos da Embrapa apontam que o custo anual com controle da doença pode ultrapassar US$ 2 bilhões por safra. O problema se agrava com a crescente resistência do fungo às principais classes de fungicidas. “O excesso de aplicações gera impacto ambiental e eleva o custo de produção”, explica o pesquisador Paulo Cruvinel, da Embrapa Instrumentação. Fusão de dados: o diferencial da tecnologia O sistema foi desenvolvido dentro do projeto “Ferramenta Digital Avançada para o Gerenciamento de Riscos Agrícolas”, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A pesquisa integrou o doutorado do cientista da computação Ricardo Alexandre Neves, na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), sob orientação da Embrapa Instrumentação. O modelo reúne: Dados de sensores ambientais (umidade, temperatura, ponto de orvalho) Informações agronômicas (cultivar, espaçamento, calendário de plantio) Imagens digitais das folhas Séries históricas climáticas de até 20 anos A inteligência artificial classifica o risco da doença em três níveis: baixo, médio e alto. O segredo está na fusão dessas informações por meio de Cadeias Ocultas de Markov — modelo estatístico que apresentou desempenho superior à lógica Fuzzy, atingindo 100% de correspondência nos cenários avaliados. “Depender apenas de imagens ou apenas de dados climáticos pode gerar falso-positivo. O ponto-chave foi integrar variáveis heterogêneas para um diagnóstico mais confiável”, afirma Neves. O estudo foi publicado em julho de 2025 na revista científica AgriEngineering. Como a doença evolui na planta A ferrugem começa discreta: manchas amareladas ou alaranjadas surgem nas folhas. Depois, tornam-se avermelhadas e se expandem. No estágio avançado, as áreas ficam castanhas e a folha morre. A tecnologia identifica esses padrões de cor — verde, amarelo, marrom — e os correlaciona com as condições ambientais ideais para o desenvolvimento do fungo: umidade relativa acima de 90% e temperaturas entre 15°C e 28°C. Durante quatro anos de pesquisa em lavoura real, utilizando a cultivar BRS 536, foram analisados mais de 2 gigabytes de dados por ciclo agrícola, coletados em parcelas georreferenciadas. Painel on-line orienta o produtor Os resultados aparecem em um painel digital intuitivo. O agricultor pode: Acompanhar séries temporais climáticas Visualizar imagens monitoradas das folhas Avaliar o nível de favorabilidade da doença Consultar recomendações agronômicas Na aba “Recomendações Agrícolas”, o sistema ainda direciona para o AGROFIT, banco oficial do Ministério da Agricultura com defensivos registrados. A proposta não é substituir o produtor — mas apoiá-lo com inteligência preditiva. Menos fungicida, mais precisão Além do diagnóstico, a plataforma ajuda a racionalizar o uso de fungicidas. Ao indicar exatamente quando o risco é alto, evita aplicações desnecessárias. O impacto vai além da produtividade: Redução de custos Menor pressão ambiental Menor risco de resistência do fungo Decisão técnica baseada em evidência Em um país que lidera a produção global de soja, transformar dados em prevenção pode significar bilhões preservados. Agora, o desafio é sair do ambiente acadêmico e ganhar escala no campo. A tecnologia está pronta. Falta conectá-la à próxima safra.














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