Ian McEwan diz que terrorismo tem a ver com falta de imaginação
Como definir Ian McEwan, possivelmente o maior escritor inglês vivo? Julian Barnes e Martins Amis são muito bons, mas nenhum de seus livros pode ser comparado ao esplêndido romance “Reparação” (Companhia das Letras, 448 páginas, tradução de Paulo Henriques Britto).
Se levasse espiritismo a sério, diria que McEwan é a reencarnação de Henry James. “Reparação”, com sua ambiguidade literalmente à flor da pele, é um romance de James parido por Ian.
Como o americano, o britânico não diz as coisas às claras, conta-as aos poucos, às migalhas, e mesmo assim o quadro nunca parece completo, à semelhança da prosa do autor de “As Asas da Pomba”.
Não que a literatura de McEwan seja complicada, mas exige um leitor minimamente instruído, que queira participar do jogo literário e que tenha interesse em formar seus próprios quadros mentais e estéticos, sem excluir os postulados pelo autor.
O prosador às vezes se torna crítico especialíssimo, admirador de, entre outros, John Updike. Nos seus romances saborosos, em que o sexo é dominante, como pedaço crucial da vida e não apenas escândalo, Updike reconstruiu meticulosamente a mentalidade da classe média americana. Ele tinha um quê de sociólogo e psicólogo, potencializado por sua poderosa imaginação literária.
McEwan, Zadie Smith e Updike
No livro “Conversas Entre Escritores — As Entrevistas da Believer” (Arte & Letra, 315 páginas, tradução de Irinêo Netto, Miguel Nicolau Abib Neto e Ernesto Klüpel), McEwan é entrevistado pela escritora Zadie Smith. “Believer” é uma revista literária norte-americana.
Zadie Smith não é a entrevistadora ideal para McEwan, porque, por falar demais, acaba por encobrir a voz do outro, um escritor sutil, ambíguo e, não raro, lacônico.
Como Zadie praticamente fornece as interpretações, obrigando o autor de “Sábado” a segui-la, a entrevista às vezes resulta num laconismo que provoca estranhamento. Porque não ficamos sabendo o que exatamente McEwan pensa, e sim o que Zadie sugere que ele pensa.
Por educação, sobretudo porque a entrevistadora se comporta como tiete, ainda que letrada, McEwan não raro parece concordar com suas ideias, em tese extraídas de sua obra, mas faz sutis ressalvas. De resto, a entrevista, se não chega a ser excelente, nada tem de ruim.
Ao comentar sobre Updike, de quem fez um belo “obituário”, McEwan diz: “Se você pensar no Updike — aquilo era surpreendente”. O inglês diz que o americano escreveu muitos livros (escrevia mais do que Philip Roth, dos mais prolíficos mestres literários dos Estados Unidos).
Zadie parece ter acreditado que McEwan estava criticando a “excessiva” produção do autor do romance “Cidadezinhas” e assinala: “É insano. Eu acho que ele tem um problema. É uma doença, ele não consegue parar”.
Ao perceber que a colega não o havia entendido, McEwan a corrige: “Seria fácil de ignorar se não fosse tão bom”.
Ao perceber que havia cometido uma gafe, Zadie insiste: “Mas são livros que se leem com prazer?” A réplica do autor do romance “Na Praia”: “É como um álbum de família, a consciência do seu próprio passado”.
Uma lição de crítica literária, perspicaz e inteligente, em poucas palavras, sem ofender a entrevistadora, que, ótima escritora, fez um comentário ligeiramente obtuso (na verdade, uma opinião).
Na apresentação da entrevista (publicada em 2005), Zadie escreve, com acerto (ainda que óbvio), que a prosa de McEwan “é controlada, cuidadosa e concisa de uma maneira poderosa; ele é eloquente em relação ao sexo e à sexualidade; ele tem uma noção das possibilidades narrativas da ciência. (…) Ele é um artesão, sempre trabalhando duro; refinando, melhorando, engajado e interessado em cada passo do processo”.
Não há as longas digressões de Henry James, mas sua prosa talvez seja menos concisa do que parece. Nada tem a ver, por exemplo, com a literatura de Hemingway. Na verdade, é um, James que leu Proust e Joyce.
Terroristas, empatia e falta de imaginação
O “alvo” do romance “Sábado” é o 11 de Setembro de 2001. McEwan escreveu o romance praticamente em cima dos fatos e não resultou uma obra de circunstância. Pelo contrário, trata-se de prosa plenamente satisfatória. “Os melhores textos escritos sobre o assunto têm sido jornalismo e não-ficção”, afirma, peremptório, McEwan.
Pensei: “Zadie vai retrucar”. Não retrucou nem perguntou quais são os “textos”. Por que McEwan não quis citar o excelente “Extremamente Alto & Incrivelmente Perto” (Rocco, 392 páginas, tradução de Daniel Galera), de Jonathan Safran Foer. O romance é de 2005 e é superior a “Sábado”.
O que explica a crueldade dos terroristas, como os integrantes da Al Qaeda de Bin Laden, que ferem e matam pessoas que nada têm a ver diretamente com suas causas políticas?
“Sempre achei que a crueldade é uma falha da imaginação. E incluo nisso a possibilidade de que alguém tenha extrema empatia por sua vítima. Na verdade, esse é o motivo pelo qual ele a fere — é como se houvesse uma carga erótica no fato de ferir o que se ama”, assinala McEwan.
Os terroristas árabes tinham empatia por suas vítimas americanas? Tudo indica que não (Há empatia destrutiva?). “Pelo menos desde o início dos anos 80, isso começou a surgir para mim como uma ideia para a ficção, a noção de que há algo que liga a imaginação e a moral. Um dos grandes valores da ficção é exatamente a possibilidade de entrar nas mentes das outras pessoas. Por isso acho que o cinema é um meio muito inferior e sem sofisticação.”
A crítica ao cinema, ainda que não aprofundada, endosso-a integralmente. “O romance… permite uma verdadeira investigação humana. Milan Kundera [um dos ídolos literários de McEwan] diz coisas muito espertas neste contexto. Ele enfatiza muito o romance como um modo de investigação. É um olhar sem amarras voltado para nossa própria imagem, de um jeito que a ciência não consegue fazer.”
García Márquez, Günter Grass, Kundera e Roth
“Reparação”, uma garota destrói a vida de um jovem, ao mentir sobre uma suposta tentativa de estupro. “Na minha ficção, venho tentando indicar a minha noção do quanto somos falhos — de um modo interessante — ao nos representarmos e ‘o que sabemos’ um do outro.”
Inimigo mortal do realismo mágico de García Márquez, McEwan ataca: “Basta dar aos personagens visões que você não poderia justificar. (…) Simpatizo com a visão segundo a qual o real — o que existe de fato — é tão rico e exigente que torna o realismo mágico uma fuga tediosa de qualquer responsabilidade artística”.
“O real, o que existe de fato, impõe muitas exigências para o escritor: como inventá-lo, como confrontá-lo ou passá-lo pelo filtro de sua própria consciência. Por isso nunca fui um grande admirador de Márquez. Gostei de ‘O Tambor’ [romance de Günter Grass], mas nunca da forma como gosto de Kundera. E parece que o realismo mágico se tornou algo como o estilo internacional nas mobílias, uma espécie de língua franca que realmente desafia a noção central do romance, que é o fato de um romance ser local. Ele é regional, é um processo que funciona às avessas.”
Admirador de Philip Roth, uma de suas sugestões para Prêmio Nobel de Literatura, McEwan diz: “Com figuras como Roth parece haver uma energia em relação à prosa. Seus livros têm uma qualidade maravilhosa, auto-inventada, feita à mão que funciona como uma marca d’água. E é por isso que eu gosto de Roth e Updike. Eles aparecem em toda a minha vida de escritor, embora nada nas minhas histórias revele isso. (…) A felicidade de ler um livro escrito por outra pessoa é, na verdade, o que faz você retornar à mesa de trabalho no dia seguinte”.
Espírito secular garante liberdades
Uma vez alguém perguntou a McEwan: “‘Se você pudesse viver até os 150 anos e tivesse a chance de se dedicar a outra carreira, você o faria?’ e eu disse: ‘Não, obrigado, acho que vou ficar com essa mesmo’. E a razão que dei foi uma frase de Henry James sobre ficção. Ele disse que a preocupação do romancista, o material que serve ao assunto, todo ele, vem da experiência. E você não fica sem experiência por ser um escritor”.
Tido como de direita, embora seja muito mais um iluminista tardio, à Voltaire ou à Diderot (que, além de filósofo, era prosador de grandes dotes), McEwan é um crítico do irracionalismo:
“Quando o Iluminismo estava sendo minado pelos estudiosos nas academias, isso foi feito com um senso geral de segurança em relação à vitória cultural definitiva dos valores do Iluminismo, e agora acho que essa vitória é muito menos assegurada.”
Cheguei ao ponto que, agora, quando alguém diz que a vida se move em torno de um único princípio organizador, eu perco o interesse. Não sinto que a vida se estruture sobre nenhum princípio único. É um impulso religioso se agarrar somente a uma coisa, a uma explicação.
O escritor diz que não tem paciência alguma com religiões. “Não sou contra religião no sentido de que me parece impossível tolerá-la, mas acho que a evidência de sua verdade está inscrita nas suas normas. E como existem, atualmente, seis mil religiões na face da Terra, todas não podem estar certas. E só o espírito secular pode garantir essas liberdades e é o espírito secular que elas contestam”.
Zadie, a intérprete, diz que McEwan tem “a crença absoluta no fato de não existir nada depois da consciência”. “Eu não vejo nenhum paradoxo no fato de celebrar todas as coisas dentro do contexto da dádiva extremamente breve da consciência”, filosofa o escritor.
Único princípio organizador é ilusão
Socialistas pregam que é possível construir o homem e a sociedade perfeitos — o que levou a ditaduras sanguinárias na União Soviética, na China, na Romênia, no Camboja e em Cuba.
Sobretudo, enfatizam que, fora do socialismo, nada vale a pena. A opinião de McEwan é pertinente: “Cheguei ao ponto que, agora, quando alguém diz que a vida se move em torno de um único princípio organizador, eu perco o interesse. Não sinto que a vida se estruture sobre nenhum princípio único. É um impulso religioso se agarrar somente a uma coisa, a uma explicação”.
O escritor ecoa, aqui e ali, as ideias do filósofo anglo-letão Isaiah Berlin, mas sem citá-lo. Stálin, Mao Tsé-tung e Fidel são pastores ou bispos de uma religião secular — o marxismo, o cristianismo das esquerdas; Marx é Deus e Lênin, Jesus Cristo. Reis das “missas negras”, diria John Gray.
Jornalistas têm o hábito de dizer que a prosa de McEwan é “macabra” (chegam a escrever Ian “McAbro”) e não é falso que, pelo menos em algumas de suas histórias, tenha cultivado zonas pantanosas da alma humana.
Com o tempo, McEwan diz ter mudado: “A ansiedade da morte ou a ansiedade dos dias que restam cria em mim uma disposição para dar um sentido ao que é humano, em vez de distorcê-lo. Acho que, como escritor, você tem uma inconsequência maravilhosa aos 20 ou 30 anos”.
“Você pode fazer coisas terríveis porque, embora saiba que racionalmente o seu tempo vai acabar, você ainda não sente isso no sangue, nas entranhas. É um tipo de irresponsabilidade que precisa ser aproveitada, assumida e explorada. À medida que envelhece, você sente a necessidade de se fazer mais claro.”
Um dos problemas de McEwan, se é “problema”: escreveu uma obra-prima, “Reparação”, muito superior a todos os seus outros livros reunidos, e agora não consegue superá-la.
Como ainda está na ativa, talvez ainda consiga escrever outro romance tão poderoso.
É como J. M. Coetzee, que, ao escrever o romance “Desonra”, parece ter chegado ao seu limite e, a partir de então, decidiu mudar para uma prosa tida como mais inventiva, mas, na verdade, muito mais pobre como literatura, exceto para acadêmicos que se sentem emulados a desvendar seus truques (experimentos) literários.
Frise-se: um McEwan mediano é quase sempre relevante, literatura de primeira linha.
Uma curiosidade sobre McEwan. Há algum tempo, folheava livros na Livraria Siciliano (do Flamboyant), agora Livraria Saraiva, quando vi a ex-mulher de um amigo. Ela estava acompanhada de uma mulher. Fomos apresentados e começamos a falar de livros.
A senhora contou-me que é tia da ex-namorada brasileira de um filho de McEwan. Fiz perguntas básicas e recebi respostas básicas. Uma delas: “McEwan vive para os livros. Estuda e pesquisa o tempo todo e tem uma curiosidade insaciável”.
A revista “Believer” pede a escritores que entrevistem escritores e o resultado, no geral, é excelente.
O livro contém entrevistas (feitas por escritores) de, entre outros, Paul Auster, John Banville (uma das melhores e mais maliciosas), Joan Didion, Janet Malcolm (sempre polêmica), Haruki Murakami, Orhan Pamuk (surpreendentemente, no geral, muito boa), Tom Stoppard, Edmund White (deliciosa), Tobias Wolff.
Na lista de 21 escritores, apesar da predominância de americanos, há um japonês (Murakami), um irlandês (Banville), um nigeriano (Chris Abani), uma australiana (Shirley Hazzard, excelente escritora), um turco (Pamuk) e uma iraniana (Marjane Satrapi).
[Texto publicado no Jornal Opção em 2010]
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