Cannabis medicinal: setor movimenta quase R$ 1 bilhão, ganha respaldo jurídico e avança no SUS
O mercado brasileiro de cannabis segue em ritmo acelerado. Segundo o Anuário de Mercado: Growshops, Headshops e Marcas, o setor movimentou R$ 967,18 milhões em 2025, o que representa um crescimento de 11,2% em relação a 2024. A expectativa é que esses números avancem ainda mais em 2026, impulsionados pela ampliação do acesso, por novos marcos regulatórios e por uma maior inclusão da cannabis medicinal no sistema público de saúde.
Com a previsão de um novo marco regulatório até março de 2026, o setor espera destravar gargalos jurídicos e atrair investidores institucionais. A decisão favorável do Superior Tribunal de Justiça (STJ) ao cultivo de cânhamo e as novas normas da Anvisa devem consolidar o que executivos do setor chamam de “fase de maturação regulatória”.
Atualmente, o mercado conta com mais de 400 marcas atuando no país. A pioneira na fabricação em solo brasileiro é a Ease Labs, com sede em Belo Horizonte. A empresa fornece produtos para programas de saúde pública, como os do estado de São Paulo, e registrou, no último ano, um crescimento de 96,3% nas vendas no canal varejo.
Além dela, outras indústrias como Prati-Donaduzzi — a primeira a obter autorização da Anvisa —, Aché e Eurofarma também possuem produtos autorizados e distribuídos em farmácias de todo o país. Em Goiás, há ainda uma iniciativa industrial de produção e comercialização de medicamentos à base de cannabis medicinal por meio da Indústria Química do Estado de Goiás (Iquego).
Criada em 2017, a Associação Goiana de Apoio e Pesquisa à Cannabis Medicinal (AGAPE) foi pioneira no estado. Atualmente, a entidade conta com mais de 30 voluntários e garante assistência médica, farmacêutica, psicológica e jurídica a mais de 250 famílias que utilizam tratamentos com cannabis medicinal.
Em entrevista exclusiva ao Jornal Opção, o fundador da AGAPE, Yuri Tejota, afirmou que a mobilização pelo acesso à medicação começou a partir de uma experiência pessoal: a mãe dele sofreu um AVC em 2014. “Após ela sair do coma e apresentar um quadro demencial, foi sugerido o uso da cannabis. Naquele período, o acesso era muito mais difícil e havia poucas entidades representativas de pacientes no Brasil”, relata.
Segundo Tejota, a vida da mãe pode ser dividida entre antes e depois do uso da cannabis. “Houve uma melhora significativa no humor, na qualidade do sono, na alimentação e também na tolerância às dores causadas pela apraxia”, afirma.
Motivado pelo amor à mãe e pela causa, Yuri Tejota aprofundou seus estudos sobre o uso terapêutico da cannabis. “Minha tese de pós-graduação deu respaldo à primeira lei do Brasil que fez o SUS reconhecer a cannabis como terapia, ainda em 2017, com o então vereador Diego Sorgatto”, contextualiza.
Após a repercussão, o vereador de Goiânia Lucas Kitão procurou Tejota para colaborar na elaboração de uma lei municipal sobre o tema. “Eu participei da redação da lei, que acabou sendo replicada em diversos municípios do país. Goiás passou a ocupar um papel de protagonismo no debate nacional”, afirma.
Com essa articulação política, a AGAPE tornou-se a primeira entidade de pacientes de cannabis a firmar parceria com uma secretaria estadual de Saúde — no caso, a Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO).
Decisão do STJ
O Superior Tribunal de Justiça definiu prazo até março de 2026 para que a Anvisa e o Ministério da Saúde regulamentem o cultivo de cânhamo industrial, com baixo teor de THC, no Brasil.
Presidente da Comissão de Cannabis Medicinal da OAB Goiás, Yuri Tejota avalia que o crescimento do mercado no estado reflete o cenário nacional, impulsionado pela comprovação cada vez maior da eficácia e segurança do uso terapêutico da cannabis.
“O Brasil depende de um avanço institucional que aprenda com a experiência das associações e dos próprios pacientes. Só assim será possível construir políticas que façam sentido para a realidade de quem precisa do tratamento, e não apenas para empresas focadas exclusivamente no lucro”, alerta.
Tratamento em Goiás
De acordo com nota da Secretaria de Estado da Saúde, o fornecimento de medicamentos à base de cannabis na rede estadual está restrito, atualmente, ao tratamento de epilepsia refratária à medicação. Essa é a única condição que possui, até o momento, evidências científicas consistentes que comprovam a eficácia da terapia.
A SES-GO destaca que essa indicação é, por enquanto, a única com respaldo técnico-científico suficiente para incorporação na rede pública de saúde.
Segundo Yuri Tejota, a ampliação do escopo de tratamentos depende da criação de Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDTs) específicos para cada patologia. “O primeiro PCDT desenvolvido pela rede estadual foi o da epilepsia, justamente por se tratar de uma indicação com estudos antigos, robustos e validados, o que facilita a elaboração dos protocolos”, conclui.
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