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Ler é fogo: queima dogmas, ilumina ideias e aquece revoluções

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Alguém escreveu que ler é um ato incendiário. Não no sentido vulgar da destruição, mas na acepção originária do fogo: força que transforma, que consome a inércia e liberta novas formas. Onde a leitura se instala com profundidade, algo deixa de ser o que era. Dogmas estalam, ideias ganham luz própria e as revoluções — antes de ocuparem as ruas — começam a aquecer no silêncio denso das páginas.

Albert Einstein observou, com precisão desconcertante, que “tudo aquilo que o homem ignora, não existe para ele. Por isso o universo de cada um se resume ao tamanho de seu saber”. Ler, portanto, não é ornamento cultural: é ampliação ontológica. Cada livro lido dilata o mundo possível, desloca fronteiras invisíveis, rompe os limites estreitos de uma realidade empobrecida pela ignorância. Quem não lê vive num universo pequeno — ainda que cercado de informações.

Desde a Antiguidade, fogo e palavra caminham juntos. Prometeu rouba o fogo dos deuses; o logos ilumina a razão humana; a tradição bíblica fala da palavra que arde no coração. Ler é herdar esse fogo simbólico: a chama da consciência crítica. Por isso, regimes autoritários sempre temeram os livros. Queimar bibliotecas nunca foi excesso, mas método. A fogueira literal é sempre resposta desesperada ao fogo metafórico da leitura. Onde há livros, há risco para o poder que se pretende absoluto.

A leitura que queima dogmas não o faz por rebeldia vazia, mas por fidelidade à inteligência. Dogma é a verdade que deixou de dialogar. Ler é colocar o pensamento em movimento, é permitir que Aristóteles seja relido à luz de Galileu, que Tomás de Aquino dialogue com Kant, que Marx seja atravessado por Weber, que Freud seja interrogado por Jung e por seus próprios limites históricos. O leitor culto não destrói a tradição: ele a purifica. O fogo da leitura não aniquila o passado — refina-o.

Mas a leitura também ilumina ideias. Não há pensamento sem fricção. Uma ideia só se acende quando encontra outra que a contraria, a tensiona, a obriga a justificar-se. Por isso, ler é sempre um encontro — e também um risco. Eduardo Affonso exprimiu esse temor com rara lucidez: “Tenho medo das pessoas que não leem, das que leem e não entendem, e das que leem e entendem apenas o que lhes convém.” O perigo não está apenas na ignorância bruta, mas na leitura seletiva, utilitária, que transforma o livro em espelho narcísico.

Ler verdadeiramente exige coragem intelectual. Exige suportar a provocação, aceitar a complexidade, ir além da superfície. Ainda nas palavras de Affonso, há algo inquietante nos que “não conseguem articular duas ideias e apreciar a faísca que o atrito entre elas é capaz de provocar”. A leitura que ilumina não simplifica: ela complica, inquieta, desloca. O fogo da inteligência não aquece os que buscam conforto, mas os que aceitam o risco do pensamento.

É nesse ponto que a leitura aquece revoluções. Nenhuma transformação histórica profunda nasceu do improviso mental. Antes das grandes rupturas sociais, houve sempre uma revolução silenciosa do pensamento. Panfletos, ensaios, romances, manifestos — antes da pólvora, houve a palavra. Ler fornece linguagem à indignação e forma à esperança. Quem lê aprende a nomear o que oprime e a imaginar o que ainda não existe.

Hegel, com seu habitual ceticismo histórico, advertiu: “O que a história ensina é que os governos e as pessoas nunca aprendem com a história.” Essa sentença só se confirma onde a leitura é abandonada ou superficial. Sem leitura histórica, a humanidade repete seus erros com a convicção trágica de quem acredita estar inovando. Ler é, também, um ato de memória ativa contra a amnésia social.

Num tempo de algoritmos, resumos apressados e opiniões instantâneas, defender a leitura profunda tornou-se um gesto quase subversivo. Ler exige tempo, silêncio e atenção — três virtudes escassas numa cultura que idolatra a velocidade e despreza a reflexão. Mas é justamente por isso que ler continua sendo fogo. Enquanto houver leitores dispostos a enfrentar textos difíceis, a atravessar ideias complexas e a sustentar o desconforto do pensamento, haverá resistência à mediocridade do pensamento pronto.

Ler é fogo porque transforma quem lê. Queima certezas fáceis, ilumina horizontes esquecidos e aquece a coragem de mudar. Num mundo que prefere a penumbra confortável, abrir um livro é acender uma chama. E toda chama, por menor que pareça, carrega em si a possibilidade de um incêndio de consciência.

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