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Do lebensraum ao vital space: estamos revivendo os caminhos que levaram ao nazista Hitler?

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Djalba Lima

A História não anuncia seus momentos decisivos com estrondo. Ela avança em deslocamentos discretos, quase sempre apresentados como pragmatismo. Antes que a força se torne regra, ela é tratada como exceção. Antes que a exceção se torne método, ela é descrita como necessidade. E, quando a necessidade se instala, o direito passa a parecer um luxo.

O século XX ensinou isso de forma trágica. O século XXI parece disposto a reaprender.

Os atos de Donald Trump em 2026 — intervenção direta na Venezuela, pressão explícita por controle da Groenlândia e do Canadá, ameaças militares recorrentes ao Irã e ao México, retórica aberta de tutela hemisférica – não são episódios isolados. Eles formam uma narrativa histórica reconhecível — e perigosamente testada.

Donald Trump e o ex-presidente da Venezuela Nicolás Maduro | Foto: Montagem

Onde tudo começa: quando o espaço deixa de ser princípio

Toda política externa agressiva começa pelo mesmo ponto: a redefinição do espaço.

Territórios deixam de ser soberanos e passam a ser descritos como vitais, estratégicos, necessários. A pergunta muda silenciosamente de natureza: já não é “quem tem direito?”, mas “quem precisa de mais?”.

Essa inflexão está na origem de duas tradições que, à primeira vista, parecem distantes, mas dialogam profundamente: o expansionismo europeu do entreguerras e o imperialismo hemisférico norte-americano.

Monroe e o Big Stick: a tutela como virtude

A Doutrina Monroe nasceu em 1823 como advertência defensiva: a Europa não deveria intervir nas Américas. Com o tempo, esse enunciado foi reinterpretado como direito de tutela dos Estados Unidos sobre o continente.

O salto decisivo ocorre com Theodore Roosevelt (1858-1919). Seu famoso corolário — “fale suavemente mas carregue um grande porrete” — transforma a doutrina em prática: intervenções “preventivas”, soberanias condicionadas, força como pedagogia.

Theodore Roosevelt: o presidente do Big Stick | Foto: Reprodução

Aqui surge um princípio duradouro: quando uma potência se julga responsável pela ordem, ela se sente autorizada a suspendê-la. Trump não criou essa tradição; ele a retomou sem disfarce.

Lebensraum: quando a necessidade substitui o direito

O conceito de Lebensraum (“espaço vital”) não foi invenção exclusiva de Hitler. Circulava na geopolítica alemã do final do século XIX como ideia de expansão necessária à sobrevivência nacional. O que Adolf Hitler fez foi radicalizar o conceito até transformá-lo em doutrina totalitária.

No Lebensraum, a soberania alheia é artificial; o espaço pode ser reorganizado pela força; e a necessidade estratégica substitui a legalidade internacional.

A lição histórica mais perturbadora não está no conteúdo racial (singular e monstruoso), mas no mecanismo: quando a necessidade é absolutizada, toda fronteira se torna provisória.

O Lebensraum do século XXI: funcional, não ideológico

O Lebensraum do século XXI não se apresenta mais como doutrina racial ou destino histórico explícito. Ele reaparece de forma mais discreta, funcional e pragmática – aquilo que poderíamos chamar de vital space.

Não um espaço para colonização demográfica, mas um espaço considerado indispensável à segurança, aos recursos, à projeção de poder e à sobrevivência estratégica de uma potência. A lógica, porém, permanece inquietantemente familiar: quando o espaço é definido como vital, a soberania alheia torna-se relativa.

O princípio é análogo: territórios são ativos estratégicos; soberania é uma variável negociável ou violada à força; e o direito cede diante da “segurança”. Groenlândia, Caribe, Venezuela, México: o discurso não é “queremos dominar”, mas “precisamos controlar”. A linguagem muda, mas a estrutura da ideia permanece.

Assim como nos anos 1930, cada passo é apresentado como exceção, jamais como projeto. E é exatamente assim que projetos expansionistas se instalam.

Mussolini e Trump: o império da performance

Se Hitler representa o expansionismo como sistema, Benito Mussolini ajuda a compreender Trump como estilo imperial.

Benito Mussolini e Adolf Hitler: líderes do nazifascismo | Foto: Reprodução

Mussolini entendia que parecer forte mobiliza mais do que ser forte; a política externa é espetáculo; a ousadia educa tanto o público interno quanto os adversários externos.

A invasão da Etiópia foi menos eficaz militarmente do que eficiente simbolicamente. Mostrou disposição para romper limites ~ e ensinou ao mundo que a reação seria fraca.

Trump opera no mesmo registro: ameaças públicas; decisões personalizadas; e diplomacia por humilhação e coerção.

Em ambos, a política externa cumpre função interna: construir autoridade pela exibição da força.

O ponto em que a História começa a gritar

A comparação não é moral. É estrutural. O alerta não está em dizer que Trump “é” Mussolini ou Hitler. Está em reconhecer os sinais que sempre precedem a escalada: espaço redefinido como destino; exceção repetida até virar hábito; força tratada como linguagem normal; instituições vistas como entraves.

Donald Trump: o novo rei das Américas e do mundo? | Foto: Reprodução

Ainda há uma diferença crucial: Trump governa uma democracia com freios institucionais reais. Mas a História ensina algo incômodo: instituições não caem de uma vez – são desgastadas por uso abusivo.

Quando a exceção vira método

Toda política externa agressiva começa com a mesma promessa:

“É só desta vez.”

Mussolini disse isso. Hitler disse isso. Trump também diz, ainda que com outras palavras.

O papel da História não é prever catástrofes. É reconhecer o momento exato em que a força deixa de ser último recurso e passa a ser método preferencial. Quando isso acontece, o movimento já começou. E, como o século XX ensinou, ele raramente se corrige sozinho.

Uma fratura profunda

Por trás de tudo isso há uma fratura mais profunda: a que separa o império da lei do império da força. Desde 1945, consolidou-se, ao menos no discurso e em boa parte da prática diplomática, um consenso segundo o qual a estabilidade internacional dependeria de regras, tratados, instituições multilaterais e previsibilidade jurídica. Mesmo quando os Estados Unidos recorreram à força — e o fizeram muitas vezes —, procuraram revesti-la de legalidade, coalizões, resoluções, narrativas de excepcionalidade.

O que distingue Trump não é o uso da força em si, mas a petulância com que a reivindica: a naturalização pública da coerção, a fala desinibida sobre controle de territórios, recursos e até petróleo estrangeiro como se fossem despojos legítimos.

A História oferece um alerta claro sobre esse caminho. Toda deriva autoritária começa quando o vocabulário da proteção passa a justificar o abandono das garantias. Trump faz isso quando promete agir em nome da liberdade, mas, na prática, pisoteia o império da lei.

Outro alerta está num livro lançado no fim da década de 1980: Ascensão e Queda das Grandes Potências. Seu autor, Paul Kennedy, demonstrou que impérios entram em declínio quando passam a depender mais da imposição militar do que da legitimidade, da cooperação e da capacidade econômica sustentável.

O império da força cobra caro: drena recursos, multiplica resistências, isola aliados e corrói a própria base do poder. Resta a pergunta histórica, inevitável e incômoda: isso fortalece os Estados Unidos ou acelera exatamente o tipo de sobre-extensão imperial que levou outros impérios à ruína? Trump leu Paul Kennedy? E, se leu, por que parece ter ignorado todas as lições?

“Impérios não caem porque perdem guerras, mas porque passam a confundir poder com coerção: quando a força substitui a legitimidade, o declínio deixa de ser risco e vira processo.” — Paul Kennedy, historiador britânico.

Por que esta imagem principal deste texto foi destacada?

Charge publicada na revista norte-americana Puck, uma das mais influentes do início do século XX, durante a presidência de Theodore Roosevelt. A ilustração, assinada por Louis Dalrymple, representa o presidente como o “policial do hemisfério”, empunhando um porrete rotulado “The New Diplomacy” (A Nova Diplomacia), enquanto segura um pergaminho intitulado “Arbitration” (Arbitragem).

O Big Stick em estado puro (1904).

Esta charge foi publicada na revista norte-americana Puck, uma das mais influentes do início do século XX, durante a presidência de Theodore Roosevelt. A ilustração, assinada por Louis Dalrymple, representa o presidente como o “policial do hemisfério”, empunhando um porrete rotulado “The New Diplomacy” (A Nova Diplomacia), enquanto segura um pergaminho intitulado “Arbitration” (Arbitragem).

A mensagem é deliberadamente explícita: a diplomacia e o direito internacional aparecem como discurso civilizado, mas a ordem é garantida pela força. A charge visualiza a transformação da Doutrina Monroe em política intervencionista ativa, consagrada pelo famoso lema de Roosevelt: “Speak softly and carry a big stick” (“Fale suavemente e carregue um grande porrete”).

Longe de denunciar o imperialismo norte-americano, a imagem o naturaliza. A América Latina surge como espaço de tutela; a soberania alheia, como condição revogável; e os Estados Unidos, como árbitro armado da ordem continental. Mais do que uma caricatura, a charge é um documento histórico: o momento em que o império da lei passa a caminhar lado a lado, e subordinado, ao império da força.

Djalba Lima, jornalista e editor de “Relatos — A Estação da História” (https://relatos.blog.br/), é colaborador do Jornal Opção.

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