Sem a Europa, os EUA têm condições de enfrentar a China e a Rússia?
O “Estadão” publicou análise da revista “The Economist”, “Qual é o verdadeiro perigo que Donald Trump representa para o mundo?”, que explica o que está acontecendo com os Estados Unidos.
Uma das omissões da análise da publicação britânica é não enfatizar que os Estados Unidos estão se reposicionando globalmente devido ao espantoso e rápido crescimento econômico e tecnológico da China. Equivoca-se aquele que pensa que o problema principal é o presidente Donald Trump. Não é.
As figuras chaves da economia americana avaliam que chegou a hora de os Estados Unidos reagirem. Porque senão, em décadas, a língua dita franca não será mais o inglês, e sim o mandarim.
Blague à parte, é possível sugerir que o próprio Trump é consequência, e não causa, da batalha, por enquanto comercial, contra o país de Xi Jinping. O professor de Harvard Graham Allison diz, no livro “A Caminho da Guerra — Os Estados Unidos e a China Conseguirão Escapar da Armadilha de Tucídides?”, que países hegemônicos e emergentes tendem a ir à guerra.
“Economist” ressalta que Trump “parece” ter desistido de atacar a Groenlândia (onde planeja instalar o sistema de defesa antimísseis “Golden Dome”) e de aumentar as tarifas àqueles países que não apoiam sua aventura nas terras geladas da Europa.
Sob pressão da Europa, uma pressão articulada e conectada, incluindo até a velha aliada Inglaterra, Trump recuou. É a boa notícia. “Sob pressão europeia, o Congresso [dos Estados Unidos] mostrou raros sinais de resistência a Trump.” É outra boa notícia.
Entretanto, pontua “Economist”, de maneira apropriada, Trump não renunciou “aos seus objetivos de longo prazo”.
Realinhamento global: hora de acordar
Os aliados dos Estados Unidos devem se preparar para um realinhamento global, sugere a revista.
“Economist” pontua que os líderes europeus precisam “prestar atenção à linguagem” do discurso de Trump. “Ele revelou um desprezo sinistro pela Europa e pelo valor da aliança transatlântica para os Estados Unidos.”
“Os amigos dos Estados Unidos, na Europa e além, precisam se preparar para um mundo em que estarão sozinhos. Isso começa com a preservação da Otan, tanto quanto possível. Construir poder militar leva anos, e Trump está com pressa”, sublinha a publicação britânica.
Por que, para defender a Ucrânia, a rica e poderosa Europa não atacou a Rússia? Optou por ajudar o país com dinheiro e armas, mas não mais do que isto.
O resultado é que o país de Nikolai Gógol e Liev Trótski está sendo destruído. A nação dirigida por Vladimir Putin tem armas nucleares. É o diferencial e a origem do temor dos europeus — que não querem se tornar Hiroshima e Nagazaki do século 21.
“Economist” ressalta que “a Europa e Ásia dependem dos Estados Unidos para equipamentos militares. Os Estados Unidos fornecem 40% da capacidade da Otan — e são os 40% mais importantes. Os Estados Unidos fornecem à Europa uma série de serviços economicamente vitais e tecnologias digitais”.
Então, resta à Europa ajoelhar-se e pedir bênção aos americanos do norte? Não é bem assim.
A revista da terra de Winston Churchill sugere que a Europa precisa fazer “um inventário do que os Estados Unidos têm a perder — e isso inclui muito mais do que o custo de mais tarifas para os consumidores americanos”.
“A Europa é um mercado de 1 trilhão de dólares em bens e serviços americanos. Ela fornece tecnologias essenciais, incluindo para fabricação de chips, equipamentos de telecomunicações, lentes, aeronaves e muito mais”, frisa “Economist”.
Trump parece disposto a criar um mundo hostil — ainda que subordinado — aos Estados Unidos.
“Incapazes de confiar nos Estados Unidos, Alemanha, Japão, Polônia e Coreia do Sul se rearmariam ainda mais rapidamente e talvez buscasse armas nucleares. A proliferação reduziria o valor do próprio arsenal americano e inibiria sua capacidade de governar. China e Rússia não concordarão com Trump sobre onde termina a influência dos Estados Unidos e começa a deles. Tudo isso pode levar a uma guerra tão devastadora que os Estados Unidos não poderiam ficar de fora” (como não ficaram a partir de dezembro de 1941 — na Europa e na Ásia).
“Economist” diz que Trump percebe danos para a Europa. Por isso os europeus precisam mostrar os possíveis prejuízos para os americanos do norte. Nenhum país, nem mesmo o mais poderoso, tem condições de sobreviver sozinho… e num mundo cada mais hostil e com duas potências infensas ao controle americano do norte — a China e a Rússia.
Os Estados Unidos talvez precisem mais da Europa do que imagina sua vã filosofia.
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