Nova pandemia? Vírus Nipah leva aeroportos da Ásia a reforçar controles após surto na Índia
O mundo ainda tenta deixar para trás o trauma da covid-19, mas um velho conhecido das autoridades de saúde voltou a causar apreensão. O vírus Nipah, patógeno altamente letal e sem vacina ou tratamento específico, motivou a adoção de medidas preventivas em aeroportos asiáticos após um novo surto registrado na Índia. O cenário levanta uma questão inevitável: o planeta corre o risco de enfrentar outra pandemia?
O alerta partiu do Estado de Bengala Ocidental, no leste da Índia, onde um surto identificado no início de janeiro levou ao isolamento de cerca de 110 pessoas. Pelo menos cinco profissionais de saúde foram infectados após contato com casos confirmados em um hospital privado da cidade de Barasat. Duas enfermeiras seguem internadas em unidades de terapia intensiva, uma delas em estado considerado “muito crítico”, segundo autoridades locais.
Inicialmente, alguns profissionais que haviam tido contato com pacientes contaminados chegaram a testar negativo, o que aumentou a preocupação das equipes médicas quanto ao período de incubação do vírus — que normalmente varia de 4 a 14 dias, mas pode chegar a até 45 dias em casos raros.
Aeroportos em alerta
A confirmação do surto levou países vizinhos a reagirem rapidamente. No domingo (25.jan.2026), de acordo com a BBC, a Tailândia iniciou protocolos de triagem sanitária em três grandes aeroportos internacionais — Don Mueang, Suvarnabhumi e Phuket — todos com voos procedentes de Bengala Ocidental. O aeroporto de Phuket, que recebe cinco voos diretos semanais da região afetada, reforçou a limpeza de áreas comuns e intensificou a coordenação com postos de controle de doenças transmissíveis.
No terminal de Suvarnabhumi, 332 passageiros provenientes da Índia foram examinados. Nenhum caso suspeito foi identificado até o momento, e a Tailândia afirma não ter registros de infecção por Nipah em seu território.
O Nepal também passou a realizar triagens no aeroporto internacional de Katmandu e em pontos de fronteira terrestre com a Índia. Já em Taiwan, autoridades de saúde propuseram classificar o Nipah como uma “doença de Categoria 5”, status reservado a infecções emergentes ou raras com alto risco à saúde pública.
Um vírus letal e sem cura
O vírus Nipah é uma doença zoonótica, ou seja, transmitida de animais para humanos. Os principais reservatórios naturais são morcegos frugívoros, mas a transmissão também pode ocorrer por meio de porcos, alimentos contaminados e contato direto entre pessoas infectadas.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Nipah apresenta taxa de letalidade entre 40% e 75%. Não existe vacina nem medicamento antiviral específico. O tratamento se limita ao controle dos sintomas e a cuidados intensivos e paliativos.
Os sintomas variam bastante: alguns pacientes permanecem assintomáticos, enquanto outros desenvolvem infecções respiratórias graves e encefalite — inflamação do cérebro potencialmente fatal. Os primeiros sinais costumam incluir febre, dor de cabeça, dores musculares, vômitos e dor de garganta. Em quadros mais graves, surgem tontura, sonolência, confusão mental, convulsões, pneumonia atípica e síndrome do desconforto respiratório agudo. Em casos extremos, o paciente pode entrar em coma entre 24 e 48 horas após o agravamento do quadro.
Doença prioritária para a OMS
O Nipah integra a lista de doenças prioritárias da OMS para pesquisa, ao lado de vírus como Ebola, Zika e o coronavírus, justamente por seu potencial de causar epidemias de grandes proporções.
O primeiro surto reconhecido ocorreu em 1999, na Malásia, e matou mais de 100 pessoas. Para conter a doença, cerca de um milhão de porcos foram abatidos. O vírus recebeu esse nome em referência à vila de Sungai Nipah, onde foi identificado pela primeira vez. Em Singapura, 11 casos e uma morte foram registrados entre trabalhadores de matadouros que lidavam com porcos importados da Malásia.
Desde 2001, Bangladesh se tornou o país mais afetado, com mais de 100 mortes. Na Índia, além do atual surto em Bengala Ocidental, houve registros em 2001 e 2007 na mesma região. O Estado de Kerala, no sul do país, enfrentou episódios graves em 2013, 2018 e 2023 — neste último, foram seis casos confirmados e duas mortes. Em 2018, 17 das 19 pessoas infectadas morreram.
Autoridades de Kerala conseguiram conter surtos anteriores em poucas semanas por meio de testagem em larga escala, rastreamento de contatos e isolamento rigoroso — estratégias que hoje servem de referência para outras regiões.
Risco global, mas sem pânico
A OMS também aponta que outros países apresentam risco potencial de infecção, como Camboja, Indonésia, Filipinas, Tailândia, Gana e Madagascar, onde já foram encontrados indícios do vírus em morcegos.
Apesar da gravidade, especialistas reforçam que, até o momento, não há evidências de transmissão comunitária descontrolada fora da Índia. Ainda assim, o reforço nos controles internacionais mostra que as lições deixadas pela pandemia de covid-19 continuam moldando as decisões das autoridades.
Por ora, o Nipah não é uma nova pandemia — mas é um lembrete contundente de que a próxima ameaça pode surgir a qualquer momento. Vigilância, transparência e resposta rápida seguem sendo as principais armas para evitar que um surto localizado se transforme em uma crise global.
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