Meia Ponte pode levar séculos para se recuperar e lixões seguem como ameaça, diz delegado da Dema
O estado crítico do Rio Meia Ponte e a persistência dos lixões em Goiás continuam sendo um dos maiores desafios ambientais do Estado. Em entrevista ao Jornal Opção, o delegado Luziano Carvalho, titular da Delegacia Estadual de Repressão a Crimes contra o Meio Ambiente (DEMA), afirma que, mesmo com medidas emergenciais, a recuperação plena do principal rio da Região Metropolitana pode levar centenas de anos.
Segundo o delegado, estudos antigos já apontavam a gravidade do cenário. Ele relembra análises feitas pelo técnico em saneamento Nery Caetano Barbosa, referência na área ambiental em Goiás. “Ele dizia que seriam necessários mais de 50 anos para recuperar o Meia Ponte. Se começarmos agora, eu arrisco dizer que esse prazo pode chegar a 500 anos”, afirmou.
Um dos principais focos de atenção, segundo Luziano Carvalho, é o tratamento do chorume gerado no Aterro Sanitário de Goiânia. Atualmente, o resíduo líquido passa por tratamento antes de ser lançado no corpo hídrico, mas o delegado questiona a efetividade do processo. “Se o tratamento não for realmente eficiente, o impacto continua recaindo sobre o Meia Ponte. O ideal é que o município trate integralmente esse chorume no próprio aterro, antes de qualquer lançamento”, defende.
Paralelamente, a DEMA prepara uma nova ofensiva contra municípios que ainda destinam resíduos sólidos a lixões. De acordo com o delegado, 39 cidades goianas continuam operando de forma irregular. “Só o fato de não ter licença ambiental já configura crime. Não é preciso provar poluição. Isso, por si só, já autoriza a responsabilização”, disse.
As investigações, segundo ele, aguardam autorização judicial em razão do foro por prerrogativa de função dos prefeitos. A apuração deverá incluir levantamentos técnicos, uso de drones e relatórios elaborados pelos próprios policiais ambientais.
Lixo no rio e danos quase irreversíveis
O delegado diz que, durante períodos de cheia, a quantidade de lixo transportada pelo Meia Ponte é alarmante. Garrafas PET, isopor e outros resíduos flutuam na superfície, enquanto uma parte ainda mais preocupante permanece no fundo do rio. “O que está em cima a gente consegue retirar. O que está no fundo é quase irreversível”, afirma.
A proposta defendida pela DEMA é a instalação de ecobarreiras em pontos estratégicos do rio, para conter o lixo flutuante e destiná-lo corretamente à reciclagem. “Esse material não pode voltar para o aterro. Ele precisa ir para usinas de reciclagem. Caso contrário, o problema se repete”, explica.
Para Luziano, grande parte do lixo tem origem no descarte inadequado da própria população. “Ainda não temos uma cultura sólida de separação de resíduos. Basta uma chuva forte para o lixo das ruas ir direto para os córregos e, depois, para o rio”, afirmou.
O delegado afirma que os danos ambientais extrapolam a questão ecológica. “Estamos falando de saúde humana, de vida aquática e silvestre. O Meia Ponte é um dos rios mais poluídos do Brasil, mas também um dos mais importantes, porque abastece 38 municípios”, disse.
Ele admite frustração com o cenário, mas defende ações imediatas para evitar o agravamento do quadro. “Não podemos deixar esse paciente piorar. Temos tecnologia, gestores e conhecimento para mitigar os danos. Salvar o Meia Ponte é salvar vidas.”
Araguaia apresenta cenário mais positivo
Ao comparar com o Rio Araguaia, o delegado avalia que a situação é menos grave, sobretudo nas nascentes. Segundo ele, áreas críticas como a voçoroca Chitolina foram completamente estabilizadas, com recuperação da vegetação e formação de lagoas naturais.
“As nascentes do Araguaia hoje são um cartão-postal. Onde havia erosão profunda, temos um lago azul, cercado por vegetação regenerada”, afirmou. A DEMA também articula a criação de corredores ecológicos ligando as nascentes ao Parque Nacional das Emas, com foco na proteção da fauna.
Para o delegado, o desafio agora é conciliar produção e preservação. “Goiás pode bater recordes na produção de grãos e carne, mas precisa mostrar que sabe respeitar as áreas de preservação. O produtor rural é o maior interessado em proteger a água, porque sem água não há produção”, concluiu.
A DEMA deve intensificar, nos próximos meses, ações de fiscalização e investigação ambiental, com foco especial nos lixões, no tratamento de resíduos e na proteção dos principais rios do Estado.
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