Quadrinhos brasileiros vivem fase de expansão e Goiás pode se tornar polo criativo
A produção de histórias em quadrinhos no Brasil atravessa um período de renovação e crescimento, impulsionada principalmente pela cena independente, por editoras de pequeno porte, financiamento coletivo, plataformas digitais e pela presença cada vez maior da nona arte em universidades e centros de pesquisa. Dados da Nielsen BookScan e do Observatório do Livro indicam que o mercado de quadrinhos cresceu mais de 32% entre 2020 e 2024, com avanço expressivo de títulos nacionais e autorais.
Esse movimento dá continuidade a uma tradição iniciada ainda no século XIX, com Angelo Agostini, autor de As Aventuras de Nhô-Quim (1869), considerada a primeira HQ brasileira registrada. Mais de 150 anos depois, os quadrinhos se firmam como linguagem artística consolidada, diversa e conectada a temas sociais, políticos e culturais contemporâneos.
Para Alysson Drakkar, coordenador de Design Gráfico e Moda da Estácio, o crescimento vai além do aumento de leitores. “Os quadrinhos brasileiros estão se beneficiando de uma cadeia criativa mais estruturada. Plataformas digitais democratizam o acesso, editoras independentes ocupam nichos que antes não existiam e artistas conseguem construir carreira sem depender apenas dos grandes selos. Essa mudança no ecossistema tem elevado tanto a qualidade quanto a diversidade das obras”, afirmou ao Jornal Opção.
Segundo o professor, a entrada definitiva da academia nesse debate foi determinante para fortalecer o setor. “Quando a universidade passa a tratar os quadrinhos como objeto de estudo, ela contribui para formar novos profissionais, preservar memória e estimular análises críticas. Isso gera um ciclo de fortalecimento que impacta diretamente a produção nacional”, explica.
Drakkar lembra que o modelo tradicional de consumo, baseado em bancas de revistas, praticamente desapareceu, mas deu lugar a novas formas de circulação. “Hoje, os quadrinhos se destacam em livrarias, exposições, cursos e ambientes digitais. Eles se tornaram uma grande ferramenta de produção de conhecimento na área da comunicação”, avalia.
Para ele, a criação de universos ficcionais, autobiografias em HQ, fanzines e webcomics ampliou as possibilidades de expressão. “O artista precisa se manifestar. Mesmo com poucos recursos, é possível produzir em preto e branco, usar fotocópia, papel reciclado ou lançar digitalmente. A iniciativa é decisiva”, afirma.
O professor também observa sinais de retomada do interesse por formatos físicos. “Existe uma revalorização do analógico: vinil, fitas, livros impressos e, aos poucos, quadrinhos. O contato físico com a obra gera outra experiência, outra imersão”, diz.
Em Goiás, o cenário acompanha o ritmo de crescimento observado no país. Coletivos criativos, eventos de cultura pop, feiras autorais e iniciativas universitárias vêm fortalecendo a formação de novos artistas e ampliando a circulação de obras. O estado passou a ser reconhecido como um polo de produção autoral no Centro-Oeste.
“Goiás vive um momento único. Temos artistas experimentando novos formatos, professores integrando HQs ao ensino e uma cena independente que movimenta cultura, economia e pesquisa”, afirma Drakkar. Ele destaca ainda que autores goianos têm sido convidados para mesas nacionais, coletâneas e festivais, além de concorrer a prêmios importantes.
A diversidade temática também é um traço marcante da produção local. “Vejo muitos trabalhos com horror, poesia, filosofia, autobiografia, protesto social e questões ambientais. É um campo aberto, plural e em constante experimentação”, observa.
Premiações tradicionais, como o Troféu HQMIX, e o reconhecimento internacional de artistas brasileiros, inclusive com conquistas no Eisner Awards, reforçam a percepção de que o mercado vive uma fase de maturidade.
Para Drakkar, o próximo passo é ampliar políticas de fomento, espaços de exposição e editais específicos para distribuição e divulgação. “Temos talento, diversidade e produção. O desafio agora é garantir sustentabilidade para que esses artistas consigam transformar criação em trajetória profissional”, completou.
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