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Os perigos da composição ideológica

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No final de 2025, um querido colega da universidade, Márcio Moretto Ribeiro, publicou no Jornal da USP um artigo intitulado Por uma universidade diversa e plural, que suscitou muitas conversas produtivas entre nosso grupo de professores. O debate sobre diversidade e pluralidade costuma ser simplificado, às vezes intencionalmente, quando se trata da composição ideológica das universidades públicas. O texto do Márcio distingue com precisão esses dois conceitos, e o faz com base em dados, pesquisa empírica e reflexão democrática. Sua argumentação é sólida: diversidade diz respeito a trajetórias de vida, identidades, desigualdades históricas; pluralidade, por sua vez, diz respeito à convivência legítima de perspectivas divergentes. Concordo com ele, são dimensões diferentes e ambas essenciais. Mas discordo profundamente da conclusão que alguns vêm tentando extrair desses dados, a ideia de que a presença majoritária de professores de esquerda nas universidades seria, por si, uma ameaça à ciência ou à democracia. A universidade não é um espelho do espectro ideológico da sociedade. Ela é, antes, um espaço regulado por critérios específicos como mérito acadêmico, método científico, revisão pelos pares, consistência argumentativa, formação de longo prazo e compromisso com a produção de conhecimento. Confundir isso com representatividade ideológica é cometer um equívoco conceitual grave. John Rawls lembrava que instituições justas não buscam refletir todas as preferências sociais, mas garantir procedimentos imparciais. O mesmo vale para a academia. A filósofa Chantal Mouffe, frequentemente invocada por quem defende maior pluralidade na universidade, jamais sugeriu que devêssemos administrar o ambiente acadêmico como se fosse um parlamento. Pelo contrário, sua teoria do agonismo democrático parte do pressuposto de que o conflito é legítimo, mas só floresce quando não é capturado por lógicas identitárias artificiais. Transformar “ser de esquerda” ou “ser de direita” em categoria de controle institucional, como se fosse raça, gênero ou classe, é justamente o tipo de essencialização da política que Mouffe critica. É confundir posição ideológica com identidade oprimida, uma operação perigosa que favorece narrativas de vitimização oportunistas. Além disso, a obsessão com a ideologia dos professores frequentemente ignora uma evidência básica: cientistas tendem a convergir, não porque são doutrinados, mas porque trabalham com dados, evidências e critérios de validação que não dependem de preferências pessoais. A física não se divide em esquerda e direita. A climatologia, tampouco. E mesmo nas humanidades, onde o debate é mais aberto, a qualidade do argumento continua sendo o principal filtro. Atribuir a distribuição ideológica da academia a aparelhamento é um insulto ao método científico e ao esforço de milhares de pesquisadores. O maior perigo dessa retórica é que ela abre caminho para intervenções políticas na produção de conhecimento. Quando governos começam a questionar a legitimidade de professores com base em suas posições políticas, o próximo passo costuma ser a restrição de temas, cortes direcionados e perseguição institucional. A história não é ambígua nesse ponto. A Hungria de Viktor Orban, a Turquia de Erdogan e os próprios EUA com Trump são exemplos recentes de regimes que atacaram a liberdade acadêmica sob o pretexto de corrigir vieses. O resultado foi devastador para a ciência e para a reputação internacional de suas universidades. Outro risco é ainda mais sutil. Ao sugerir que uma universidade equilibrada deveria ter um número equivalente de professores de cada ideologia, abre-se a porta para uma lógica de cotas ideológicas, algo incompatível com qualquer noção de autonomia universitária. Isso não apenas distorce os critérios de contratação como rebaixa o trabalho acadêmico a um cálculo partidário. O conhecimento deixa de ser avaliado por suas contribuições e passa a ser filtrado por sua conveniência política. É o oposto do ideal iluminista que orienta a pesquisa moderna. É claro que o debate plural é saudável, ninguém discorda disso. Mas pluralidade não se produz por engenharia social, e sim por liberdade acadêmica, diversidade metodológica e abertura ao dissenso argumentativo. O que ameaça a universidade não é o excesso de professores de esquerda, mas a tentativa de politizar a distribuição interna de ideias, como se instituições de pesquisa devessem cumprir metas de paridade ideológica ditadas de fora. Por isso, ao invés de denunciar a predominância da esquerda na universidade, deveríamos denunciar o próprio impulso de medir ciência por parâmetros político-partidários. A verdadeira pluralidade nasce da autonomia, não da coerção; da crítica, não da contabilidade de posições; do rigor intelectual, não do controle ideológico. E é essa pluralidade, não uma aritmética política, que precisamos proteger. (*) Elaine Borges, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades.














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