O show de Bad Bunny e o Super Bowl cada vez mais globalizado
O show do intervalo do Super Bowl LX, comandado pelo porto-riquenho Bad Bunny, foi mais do que uma simples apresentação: tornou-se uma afirmação de identidade. Em um dos eventos mais emblemáticos da cultura popular dos Estados Unidos, o artista optou por cantar majoritariamente em espanhol e celebrar suas raízes de Porto Rico. Ao fazer isso, também provocou reações políticas, incomodando o ex-presidente Donald Trump e outros defensores de políticas anti-imigração extremas, que criticaram a performance.
Desde o momento em que declarou “Qué rico es ser latino” e falou com o público em espanhol, Bad Bunny deixou claro que estava ali para mostrar sua própria identidade cultural. A apresentação, com cenários que remetiam a paisagens e cenas do cotidiano porto-riquenho e latino-americano, reforçou a ideia de que o tradicional espetáculo poderia abrir espaço para mais vozes e narrativas.
Ao longo do show, elementos como ritmos latinos variados (de reggaeton a salsa, passando por remixes e homenagens) dialogaram com a audiência de forma direta. E no final, ao citar países latino-americanos um por um (incluindo o Brasil), Bad Bunny reconheceu a diversidade do público latino e transformou o momento em uma celebração coletiva de pertencimento e representatividade.
Esse gesto é especialmente potente quando pensado no contexto social dos Estados Unidos, onde mais de 60 milhões de pessoas se identificam como latinas/os e o espanhol é a segunda língua mais falada no país. Em meio a debates sobre imigração e à atuação mais visível de órgãos como o ICE (Imigração e Alfândega do país), valorizar publicamente a cultura latina ganha ainda mais peso, não apenas como celebração, mas como afirmação de presença e pertencimento.
Outra parte da significância desse gesto vem do contexto esportivo e cultural em que o Super Bowl está inserido. Enquanto nas Major League Baseball (MLB), o beisebol, quase 30% dos jogadores nas equipes são de origem latino-americana, refletindo a enorme influência desse grupo no esporte mais tradicionalmente associado aos latinos nos EUA, no futebol americano a presença ainda é muito menor.
Na temporada 2025, por exemplo, apenas 47 jogadores de ascendência latina estavam registrados em times da NFL, o que é menos do que um elenco completo de 53 atletas por time e representa cerca de 2,7 % do total de jogadores na liga. Incluindo o brasileiro Cairo Santos, kicker do Chicago Bears. Esse número, embora o maior da história recente da liga, mostra o quanto a representação de latinos no futebol americano profissional ainda é pequena, mesmo em um país onde latinos formam uma parte cada vez mais proporcional da população e dos fãs.
Esse também foi um dos motivos para que a performance no Super Bowl fosse emblemática. Além da visibilidade cultural gerada pelo show, a liga vive a expectativa em torno do quarterback Fernando Mendoza, de raízes cubanas, que se declarou para o Draft de 2026. Ele viveu uma temporada extraordinária na Universidade de Indiana, na qual venceu o Heisman Trophy e liderou o time à conquista do campeonato nacional.
Mendoza é amplamente projetado para ser a primeira escolha geral do Draft, possivelmente pelo Las Vegas Raiders, o que pode transformá-lo em uma nova referência latina na principal liga de futebol americano nos Estados Unidos. Pontuando que a franquia no passado já teve Jim Plunkett, o único quarterback de origem latina que venceu o Super Bowl, e fez isso duas vezes 1981 e 1984.
Apesar da recepção amplamente positiva por parte do público e da crítica, a apresentação também gerou reações negativas em alguns setores do país. O presidente Donald Trump classificou o show como “absolutamente terrível” e “uma afronta à grandeza da América”, questionando se a performance representava os valores culturais tradicionais dos Estados Unidos. Além dele, outros grupos políticos chegaram a sinalizar boicotes e a promover atrações alternativas ao show do intervalo como forma de protesto.
Por fim, a apresentação de Bad Bunny pode abrir caminho para shows de intervalo com maior diversidade cultural no Super Bowl. Com o futebol americano cada vez mais globalizado, o evento passa a atrair influências e públicos de diferentes partes do mundo. Desta vez, a performance foi de um artista de Porto Rico, mas a próxima pode muito bem ser de um grupo de K-pop da Coreia do Sul, por exemplo.
O post O show de Bad Bunny e o Super Bowl cada vez mais globalizado apareceu primeiro em Jornal Opção.
