Fui arrebatado pela alegria da criançada
De repente, não mais que de repente, fui arrebatado pela alegria da criançada. Eram mais de cem alunos da Escola Municipal Benedita Luíza da Silva de Miranda reunidos na quadra esportiva da instituição para o plantio de 31 árvores dentro da escola. A animação dos estudantes despertou em mim o quintal especial da vida: o “da minha infância querida que anos não trazem mais”. Felizmente, o menino que fui costuma me visitar de vez em quando, movido por alguma circunstância que remete àquele tempo, que o próprio tempo engoliu, mas que deixou significativos rastros.
Era horário de recreio, e a algazarra dos gritos e risos da meninada me fizeram empoleirar no dorso da lembrança, e eu rumei para Belo Horizonte, mais precisamente à Escola Estadual Marechal Deodoro da Fonseca, onde fiz o primário. Já falei disso por aqui, mas tive de retornar. Os meninos da minha turma brincávamos dizendo que estudávamos na “Escola Marechal Deodoro da Fonseca: uma perna fina, outra seca”.
Só me lembro do nome de dois coleguinhas de classe: Murilo e Ângela. Os bancos escolares daquela época eram para dois alunos; Murilo e eu sentávamos juntos. Ângela era a mais linda da sala. Minha turma e eu éramos gamados por ela. Passávamos na porta da sua casa. Era um amor coletivo. Namorei com Ângela sem que ela soubesse. O Murilo também foi seu namorado, assim como outros meninos.
Voltando aos estudantes que me puseram no dorso da lembrança. Professores da escola e técnicos da Agência Municipal de Meio Ambiente falaram a eles sobre a importância do plantio de árvores para a saúde do planeta. Explicaram que cada muda plantada representa um compromisso com o futuro e com a preservação ambiental. Também destacaram que as árvores ajudam a melhorar a qualidade do ar, manter a umidade do solo, amenizar a temperatura e servir de abrigo para aves e outros animais. (Abro aqui um parêntese: além de abrigos, as árvores também são palcos para os passarinhos.)
Fiquei observando aqueles rostinhos atentos escutando a fala dos adultos, muitos segurando mudas de árvores variadas. É claro que havia algumas crianças distantes do que estava acontecendo ali, o que é normal; acontece até entre adultos nos eventos, que, na verdade, fazem pior: em vez da simples dispersão das crianças, mergulham na luzinha alucinante do celular e não escutam nada. Enfim são abduzidas. Depois da prosa, vi uma garotinha — seu nome é Melissa — e perguntei sobre a importância de plantar árvores. Ela foi curtíssima na resposta, mas disse muito: “Pra mim, a importância de plantar árvores é colher vidas”.
Muitos adultos não sabem o que Melissa sabe. A Equatorial então nem se fala: é um monstro voraz de árvores. Tomara que as varadas do prefeito funcionem para conter a fúria dendroclasta da empresa. E Melissa, quando adulta, certamente será uma pessoa envolvida na proteção de árvores. A população também tem a sua parcela de culpa no cartório para com a situação de agressividade (e até mortes) por que passam as árvores. Se sairmos por aí, vamos encontrar muitos imóveis sem uma árvore sequer na porta. Sem se falar nas pessoas que estrangulam as árvores de sua calçada, cimentando em volta de seus troncos.
Esse fato escancara a ignorância dessas pessoas: não saberem que as árvores são seres vivos iguais a elas. Aqui cabe, portanto, uma ressalva sobre a importância maior das árvores: elas não poluem rios, não espalham lixo pelas ruas, não fazem podas drásticas de pessoas, não agridem a terra que as mantém. Ao contrário das marcas letais de desgaste deixadas pelos seres humanos, as árvores deixam apenas sinais de permanência. E ainda são palcos para os passarinhos.
Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza
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