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O Brasil tem 65 mil eleitos e ainda procura-se um único culpado

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O Brasil tem 1 presidente, 27 governadores, 81 senadores, 513 deputados federais, 1.059 deputados estaduais, 5.568 prefeitos e mais de 58 mil vereadores. São mais de 65 mil representantes eleitos com poder formal de decisão. Ainda assim, diante de cada crise econômica, institucional ou social, a pergunta que ecoa nas redes e nas conversas cotidianas parece sempre apontar para um único endereço: e agora, de quem é a culpa?

A política brasileira sofre de um vício recorrente: a personalização extrema. O presidente da República é, naturalmente, a figura mais visível. Conduz a política econômica, influencia o Orçamento, articula com o Congresso, sanciona ou veta leis e simboliza o rumo do país. Sua responsabilidade é real e proporcional ao peso do cargo.

Mas ele não governa sozinho e o Brasil não funciona por decreto individual.

Governadores administram áreas sensíveis como segurança pública e têm autonomia orçamentária significativa. Prefeitos executam políticas que impactam diretamente a vida da população, da saúde básica ao transporte urbano. Deputados e senadores moldam leis, alteram propostas do Executivo e definem prioridades de gasto. Assembleias legislativas e câmaras municipais aprovam normas que interferem no cotidiano das cidades.

O poder é descentralizado. A responsabilidade também deveria ser.

Transformar o presidente no único culpado por todos os problemas nacionais simplifica a realidade e facilita a indignação. Ao mesmo tempo, usar a multiplicidade de cargos para diluir responsabilidades e sugerir que “ninguém manda em nada” também é um atalho conveniente. Entre o bode expiatório e a dispersão generalizada, instala-se o ambiente ideal para a omissão coletiva.

Crises econômicas têm componentes federais, mas também dependem de decisões do Congresso. A segurança pública é majoritariamente estadual. A eficiência da saúde básica e da educação começa nos municípios. O pacto federativo distribui competências justamente para evitar concentração absoluta de poder e, consequentemente, de culpa.

O problema é que a cobrança não acompanha essa lógica.

É mais fácil discutir o presidente do que fiscalizar o voto de um deputado. É mais simples culpar Brasília do que acompanhar o orçamento da própria cidade. A política nacional mobiliza paixões; a política local exige atenção constante.

O Brasil não fracassa por um só. Tampouco se resolve com a troca isolada de um nome. A democracia distribui poder em diferentes níveis, e essa distribuição exige maturidade cívica: cobrar todos, sem seletividade e sem atalhos narrativos.

Se há 65 mil eleitos, há 65 mil pontos de responsabilidade. A pergunta não deveria ser apenas “de quem é a culpa?”, mas “estamos cobrando todos que elegemos?”

Talvez o amadurecimento político comece quando abandonarmos a busca por um único culpado e assumirmos que, em um sistema tão amplo, a responsabilidade é necessariamente compartilhada.

Leia também: O engajamento redefiniu a relevância política

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