O Agente Secreto é o pior filme de Kleber Mendonça e a pior atuação de Wagner Moura
Flávio Rocha Lima Paranhos
Especial para o Jornal Opção
“Esse artigo fala da guerra (…) do Golfo (…). Como foi entregue à redação na época da entrada das tropas aliadas em Kwait City (…) é provável que seja lido (…) quando o resultado já foi considerado satisfatório.”
Assim começa Umberto Eco o primeiro artigo no livro “Cinco Escritos Morais”, com o qual trombei passeando os olhos por minhas estantes. Doloroso ler (de novo) algo assim hoje. E mais ainda o próximo, “O Fascismo Eterno”, em que Eco analisa o fascismo com Mussolini, fundamentado num nacionalismo e imperialismo (Roma eterna!). “Mussolini não tinha qualquer filosofia, tinha apenas uma retórica”, afirma. Rings a bell?
Se dei a impressão até aqui que estou me preparando pra falar de política, peço desculpas, porque não é o caso. Interessa-me falar de cinema.
Assim como Eco, escrevo isso na manhã de domingo do Oscar 2026, portanto, assim como ele, antes de saber quem foram os vencedores.
Mas vou me valer de uma de suas preocupações políticas — o nacionalismo. Como todo fanatismo, o nacionalismo é excludente e emburrecedor. O que, por sinal, faz do termo “nacionalista cristão” uma absoluta contradictio in terminis. Mas eu disse que não iria falar de política. Vamos ficar só com o “emburrecedor”.
Uma onda “Pra frente Brasil” está na torcida por Wagner Moura e seu “O Agente Secreto”, como quem torce pela seleção na copa (enfrentando, ironicamente, a torcida contra da turma que se apropriou da camisa da seleção). Somente uma histeria coletiva é capaz de explicar tamanho disparate. O lado a favor está errado, e o lado contra está torcendo contra pelo motivo errado. Senão vejamos.
“O Agente Secreto” deve ser o pior filme já realizado pelo excelente diretor Kleber Mendonça Filho, e a pior atuação já documentada do excelente ator Wagner Moura.
Não consigo achar justificativa que redima um roteiro preguiçoso e apressado (sim, consegue ser as duas coisas), que resulta numa estória sem pé nem cabeça, e uma atuação que, na última cena, chega a dar uma vergonha alheia de fazer caspas virarem mandiopã.
Não sou contra filmes “sem pé nem cabeça”, porque os há no bom e no mau sentidos.
No bom sentido, por exemplo, eu citaria o sueco Roy Andersson (Um pombo pousou num ramo a refletir na existência), a(o)s tcheca(o)s Věra Chytilová (Daisies) e Jan Němec (A report on the party and guests), e, pra parar por aqui, porque eu adoro filme sem pé nem cabeça, teria de citar um bocado, o meu preferido, o grego Yorgos Lanthimos (Kinds of kindness deve ser o filme mais inteligente que vi nos últimos tempos). Enfim, não é o caso de “O Agente Secreto”.
Como, aparentemente, escapei da hipnose semicoletiva, minha torcida é por “Uma Batalha Após a Outra”, e seus três protagonistas, Leonardo di Caprio, Sean Penn e Teyana Taylor (eu sei que tem mais gente boa no filme, mas esses três estão irretocáveis).
Há muito tempo não vejo um filme que consegue defender uma tese e ser entretenimento ao mesmo tempo, de forma eficaz. Não vibrei tanto com Sinners, consequentemente, não vibrei tanto com Michael B Jordan, mas certamente merece mais do que nosso bom e velho Wagner.
Aliás, qualquer um merece ganhar, menos nosso Wagner. O que é uma pena, porque em qualquer outro filme (Cidade baixa, Ó paí ó, meus preferidos) seria inquestionável. Não sei se foi decisão dele ou do diretor, ou, o que suspeito, compartilhada, de toda forma, desgraçadamente infeliz.
E pra enterrar de vez meu pé na jaca nacionalista, também torço para que “O Agente Secreto” perca a categoria de melhor filme estrangeiro pro bergmaniano “Valor sentimental”. Foi apenas um acidente também não merece, começa flertando com “A morte e a donzela”, de Polanski/Dorfmann mas termina só piegas mesmo. De resto, vale o mantra estoico, não percamos tempo com o que não depende de nós.
Flávio Rocha Lima Paranhos, médico e escritor, é colaborador do Jornal Opção.
Nota do Jornal Opção
O artigo foi escrito antes da premiação do Oscar. É publicado por que suas teses permanecem válidas.
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